então posso dizer que sou pai. 12.05.17

maio 12, 2017

Subitamente, não menos que de repente, comecei a escrever. Não foi algo estudado, premeditado, pensado ou até mesmo desejado. Simplesmente posou na janela do quarto, segurei e logo depois deixei que despencasse sobre a tela do celular, como uma bigorna nos desenhos animados. Digitei e contemplei aquelas palavras ralas e simples que falavam do céu. Então me vi nesse momento descobrindo um novo segredo, uma nova forma de olhar e falar com a linguagem dos sentimentos.

Vieram outros depois dele; muitos usados, muitos suados, muitos amados, muitos odiados, muitos rasgados, muitos incompletos, mas o que importa é que o tempo passou sem clemência. Eu cresci e as palavras que vinham de mim não acompanhavam o meu ritmo, elas amadureciam sozinhas. Elas pediram emancipação e passaram a responder por si mesmas, independentes de papel e lápis. Elas agora são soletradas aqui dentro e juntando o som de cada vocábulo caoticamente organizado num poema, é possível ouvir as histórias que cada sorriso, cada lágrima, cada pedaço meu escreveu. A grande interrogação é quando morrerão e deixarão de ser sentimentais.
Talvez os poemas sejam como filhos: cultivamos aqui dentro, damos a vida aqui fora, cuidamos por um tempo e criamos para o mundo se encarregar de julgar, quando elas passam a não depender de seu progenitor. Se escrever é dar liberdade a isso que deixamos se desenvolver dentro de nós, então já posso dizer que sou pai.

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